Continue a gozar
Diagnóstico da nossa fadiga de cada dia.
Houve um tempo em que o poder era honesto: ele vinha pelo “não”. Era a censura, o muro, o guarda na esquina, era nítido e escancarado. Você sabia exatamente onde a sua liberdade terminava porque batia de frente com um limite físico, um dogma ou uma proibição clara. Só que o sistema ficou esperto como o diabo. Percebeu que o chicote cansa o braço de quem bate e revolta quem apanha. A estratégia mudou. A dominação parou de vir pela falta e passou a vir pelo excesso.
Saímos da era do “não pode” para a era do “tem que”: tem que ser feliz, tem que ser produtivo, tem que gozar de qualquer maneira.
O controle não precisa mais de força bruta porque ele se jogou para dentro do nosso desejo. Montou uma fábrica de vontades na nossa cabeça. A gente se sente livre porque escolhe a marca da cerveja ou o modelo do celular, mas o impulso que nos empurra para esses objetos foi fabricado em uma linha de montagem emocional muito antes da gente chegar na vitrine. A verdade é que ninguém compra uma coisa; a gente tenta comprar o alívio de uma ansiedade que o próprio mercado criou dez minutos antes só para nos vender a cura, vide a indústria farmacêutica, por exemplo.
Essa lógica doentia infiltrou-se em todos os cantos, inclusive na forma como educamos. Se antes os pais eram o centro autoritário da família, hoje eles se desdobram para proporcionar o melhor aos filhos.
Mas o preço oculto dessa dedicação é a exigência silenciosa de que os filhos sejam plenamente felizes e satisfeitos. É um novo tipo de autoritarismo: o dever de não sofrer. Cobrar felicidade plena é uma tarefa tão violenta quanto o antigo modelo da obediência cega. Se o filho está triste ou frustrado, ele não sente apenas uma dor comum; ele sente que falhou como projeto emocional da família. O sofrimento virou defeito de fabricação.
O resultado é uma realidade de afetos exaustos. Se antes a gente sofria por não poder fazer o que queria, hoje sofremos por não conseguir sentir o prazer que o mundo nos ordena sentir. O imperativo de gozo é a nova régua de tudo. Se o seu fim de semana não produziu uma evidência de euforia, se a sua viagem não foi uma explosão de êxtase, você sente que falhou.
Antigamente, o sistema dizia “não faça”. Hoje, ele grita: “faça tudo, agora, e sinta-se plenamente satisfeito ou você é um fracasso”.
A autonomia real não está em ter acesso a tudo, mas em ter a coragem de não desejar o que todo mundo diz que é indispensável. É o direito de estar quebrado, cansado e, finalmente, fora do ângulo.



