Qual a cor do mar?
É verde ou azul?
A manhã na areia molhada era uma arena de debates. De um lado, Fernando, com sete anos de certeza absoluta, apontava o dedo para o horizonte. “É azul, Lygia. Azul caneta, azul céu, azul de doer o olho. Não tem erro.”
Do outro, Lygia, aos seis anos e meio de teimosia irredutível, cruzava os braços com desdém. “Você tá cego? É verde. Verde folha, verde limão, verde esmeralda que nem o anel da vovó. O azul é só o céu que se acha.”
Fernando argumentava com a lógica das cores primárias: “Se o céu reflete, é azul!”. Lygia rebatia com a evidência das algas: “E as algas debaixo d’água? Elas tingem tudo de verde!”. O sol subia e a disputa não dava nenhum sinal de trégua.
Exaustos de palavras, pararam. A água lambia a areia em seu vaivém, a poucos metros dali. Sem dizer nada, como se um pacto invisível tivesse sido selado, deram as mãos e correram. Veio o frio no corpo, o sal nos lábios e a resistência da água nas pernas. Já na primeira onda, sob o peso do todo, a dúvida se afogou. Fernando olhou para Lygia, Lygia olhou para Fernando, e os dois, com a água pela cintura, disseram juntos:
— É mar.


